À mesa e no quintal
Segunda-feira, Maio 30, 2005
 
Boa Água

Tínhamos acabado de almoçar. Nesse tempo ainda a Anita não estava enjoada de ir passear pelas redondezas e o João não tinha quase outro remédio do que nos acompanhar. Depois de levantada a mesa, lavadas as grelhas, dado um jeitinho à cozinha eram horas de partirmos para um passeio digestivo. Nas redondezas, há muito que ver. A Mina de S. Domingos, a aldeia propriamente dita, as tapadas, as ruínas das minas e das áreas complementares como a fábrica do enxofre, as paisagens que circundam o rio Chança, a própria barragem e as albufeiras, alguns montinho típicos. Mais longe, mas não tanto que não se possa ir num pé e vir no outro, o Pulo do Lobo para não falar na deslumbrante vila de Mértola. Mas desta vez fomos ao Pomarão. Onde outrora o seu cais servia de ponto chegada da linha férrea que trazia o minério de S. Domingos e de porto de partida, Guadiana abaixo até Vila Real de Santo António e depois oceano fora. Hoje quase todos estes montinhos estão apenas semi-acordados. O fecho da mina foi apenas a machada final, onde a guerra colonial, a árdua vida das ceifas, alimentada a água fervida com toucinho e acelgas já tinha mandado para a Alemanha e para a França alguns dos seus melhores filhos. Hoje recomeçam a acordar com os descendentes dos que abalaram a retomar e a reconstruir as casas meio abandonadas. Para estes o Alentejo passou a ser o refúgio do bulício citadino, num regresso, mesmo que parcial, às origens. É no meio deste sossego que encontrámos no Pomarão o senhor Joaquim. Que nos contou algumas histórias do tempo em que era mineiro, do tempo em que no cais se trabalhava com afinco. O Senhor Joaquim que agora contempla o rio e as cegonhas. O Senhor Joaquim que quando o João, com uma garrafa vazia de litro e meio, lhe perguntou se podia enchê-la ali no chafariz mesmo ao lado, lhe respondeu:
- O melhor é encheres a garrafa naquele ali mais além. A água aqui também é boa mas não presta.
Terça-feira, Setembro 21, 2004
 
Vai uma bejeca?

"Desde a Antiguidade que se consome cerveja na Índia e na China. No Egipto Faraónico, a cerveja chegou a ser considerada bebida nacional e na Hispânia, o seu consumo era maciço. Contudo, os grandes bebedores de cerveja eram os Sumérios.Mas foi apenas no séc. XIII que surgiu um tipo de cerveja parecido com a que consumimos hoje. Este pequeno milagre foi conseguido por frades, graças à introdução do lúpulo como conservante.No séc. XV, a Alemanha fabrica a primeira cerveja ligeira, pouco fermentada, que desde a Baviera se foi estendendo ao resto da Europa.A cerveja manteve-se artesanal até 1860, quando Louis Pasteur, através dos seus trabalhos sobre fermentação da levedura, melhorou o processo de fabricação.No séc. XIX, surge em França uma cerveja local mais suave e sem álcool que deu origem a um moderno conceito de cerveja na década de 60: a Cerveja sem álcool."

In
http://www.republicadacerveja.pt/html/cerv_historia.htm


Enquanto os meus dois amigos Serafim e Joca mordiscavam um pedaço de entrecosto, que o primeiro havia grelhado a preceito e, discutiam a quem haviam de dar vivas pela descoberta da cerveja, o Anastácio apareceu, com o seu ar de quem sempre tudo sabe e após escutá-los atentamente interveio:

- Pois eu cá, compadres, eu dou as minhas vivas aos brasileiros.
- Aos brasileiros???? – Perguntamos em uníssono, sem termos atingido o alcance da afirmação do Anastácio.
- Pois sim, homessa, aos brasileiros sim senhores.
- Ó compadre Anastácio, perguntava eu, calculando que dali não iria sair boa, mas diga-me lá vossemecê, o que é que os brasileiros têm a ver com a invenção da cerveja?
- Não é isso, compadre Vitor, não é nada disso. Eu dou vivas aos brasileiros por terem inventado a telenovela.
- Mas ó compadre, ripostou o Serafim, a gente está aqui discutindo quem teve mais mérito na invenção da cerveja e o compadre vem dar vivas aos brasileiros por causa da telenovela. Só você, compadre Anastácio, só você para desconversar.
- Mas qual desconversar, qual quê compadre Serafim. Então vossemecê não acha que quem todo o mérito são os nossos irmãos do lado de lá do Atlântico? Vejam vossemecês se eu não estou com a razão. Onde é que estão as comadres, vá lá, digam lá onde é que estão as comadres?
- Se calha lá dentro, vendo a telenovela, compadre – alvitrou o Joca.
- Pois é por isso mesmo que eu lhes dou vivas compadres. Enquanto as moças estão lá dentro distraídas com o romance, estão vossemecês aqui fora a virar cervejas atrás de cervejas, sem elas darem por nada. E a propósito, com menos conversa já eu bebia outra, que estou com a garganta seca.



Quarta-feira, Março 24, 2004
 
A história da mula

- Ouvi dizer que o compadre rifou uma mula morta – atirei eu esperando ouvir da boca do próprio Anastácio uma história deliciosa, que eu já conhecia, mas esperando ser contada do jeito que apenas ele sabe contar.

- Ouviu e ouviu muito bem, compadre. Rifei e ainda ganhei 798 Euros – ripostou orgulhoso com o negócio o Anastácio ajeitando a boina na cabeça.

- Então conte lá homem. Está tudo aqui à espera de saber que negócio foi esse. Olhe lá ali a cara do Ti Manel, já a abanar a cabeça – desafiei eu.

A comitiva de ciganos tinha chegado havia menos de 15 dias. Uma mula, quase esquelética puxava uma velha carroça. Atrás, três burros com um, não menos, ar faminto. O inevitável cão caminhava por debaixo da carroça, aproveitando a sombra. O patriarca de longas barbas brancas, fato preto e chapéu com fita montava-se na galera onde mais duas mulheres cuja idade não se adivinhava, saias longas, lenço na cabeça, um jovem com a barba por fazer há mais de uma semana, cabelos encaracolados em cabeça descoberta e mal tratada, duas crianças, uma menina de longos cabelos atados com um cordel, um garotinho cujos calções já só tinham uma alça, lhe faziam companhia. Assentaram arraiais num terreno perto do povo. A desconfiança sobre os visitantes é a habitual em circunstâncias destas. As minorias não são aceites na generalidade das regiões e o Alentejo não é excepção. Talvez seja um pouco mais paciente. Mas depressa se desvaneceram. A recém chegada família foi lesta a socializar-se e foi na venda do Pires que estabeleceram o negócio. Acho que o Anastácio aceitou mais comprar a mula para ver se a ainda seria possível salvá-la de uma morte certa pela fome do que, pela falta que a mula lhe fazia. Pagou duzentos euros pela alimária, dinheiro à vista e ficou de ir lá buscar a mula no dia seguinte, pois o lusco-fusco e alguma falta de vista não convidavam o Anastácio a passeios nocturnos pelo campo.
Quando na manhã seguinte chegou ao acampamento cigano, já a mula tinha morrido. Logicamente pediu a devolução do dinheiro. Mas o patriarca já não o tinha. Aproveitou para, na noite anterior, gastá-lo na mercearia e na taberna. Anastácio não abdicou da sua compra. Meia hora depois estava de novo no acampamento, agora com o Felisberto que, com o tractor e o reboque, trouxeram a mula morta para a pequena courela do Anastácio.

- Pois é compadre, fui à Marirmínia comprar um bloquinho, fiz umas rifas e rifei a mula. Vendi as 500 rifas só num dia. Também, por 2 euros quem é que não se habilitava a uma mula? – Continuou a contar a história o Anastácio. – Saiu ao Jaquim Afonso.

- Ao pai ou ao filho? – Interrompeu o Ti Manel, para perguntar. Como se o Anastácio não soubesse que iria ser interrompido precisamente naquele momento. Fez uma pausa e bebeu um pouco mais do vinho que ainda lhe sobrava no copo, para refrescar a boca, que a história já ía longa.

- Ao chique esperto do filho, é claro – respondeu o Anastácio, depois de limpar a boca às costas da mão.

- Então e ele, compadre, ficou com a mula morta? – Perguntei eu, apesar de já conhecer o desfecho.

- Oh homem e quem é que quer uma mula morta? Claro que não. Barafustou, reclamou, ameaçou e eu disse-lhe: «Homem quem é que ía adivinhar que a mula morria, enquanto eu a rifava?».

- Então e o Jaquim ficou-se assim? – Perguntou ansioso o Ti Manel – dizem no monte que não é rapaz de se ficar.

- Oh Manel, o que é que achas que se podia fazer numa altura daquelas? Devolvi-lhe os dois euros da rifa, pois claro.

Segunda-feira, Março 22, 2004
 
A idade dos whiskies

A história de hoje é uma história muito pequenina, mas, por justiça ao Joca, eu não poderia deixar de a contar. Como é costume, nestas histórias do quotidiano, tenho sempre relatado as piadas do meu compadre Anastácio que têm muitas vezes como alvo, o Joca. Existe aqui e ali uma intenção clara do Anastácio “picar” o Joca, mas isso é compreensível. O meu compadre é muito brincalhão e o meu amigo Joca também o é, embora afine quando a coisa é com ele. Não sei se o Joca andou a remorder e a pensar “um dia deste lixo-te” mas a verdade é que no Domingo foi o dia de glória dele.
Estávamos sentados à mesa como de costume. Acabáramos de almoçar um daqueles almoços que só o peso não nos deixava levantar da cadeira. A Maria tinha assado umas cabeças de borrego no forno da cozinha, o vinho era de Pias, as obrigações para o resto do dia, nenhumas e assim, pudemos chupar até ao último ossinho. Já tínhamos comido e bebido bem quando, durante o cafezinho, apareceu o meu compadre Anastácio.

- Ora ainda bem que apareceu – disse-lhe o Joca, como que a querer provocar algo. – Sente-se aqui homem e beba qualquer coisa com a gente.

- O que é que vossemecês estão bebendo aí? – Perguntou o Anastácio.

- Olhe compadre, a gente já está no café e no whisky, mas se o compadre preferir um copinho eu vou lá dentro buscar o garrafão. Hoje é bom, é de Pias. – Disse eu, dando a opção da escolha ao meu compadre.

- Não senhor, compadre, eu bebo do que os outros bebem, homessa. Bote lá aí um pedacinho num copinho. Sem gelo que eu não estou com os calores – avisou o Anastácio.

- Tenho aqui de 5 e de 12 anos, qual prefere compadre? – Dei de novo opção ao Anastácio.

O Anastácio de whisky não percebe nada. Raramente bebe e, acho eu que, só foi para esta bebida para nos fazer companhia.

- Porquê, compadre costuma ter mais velho? – Pergunta o Anastácio sem saber o que lhe esperava.

O Joca não esperou nem um instante:

- Tínhamos de 21, mas já cá não há. Foi para a tropa.

Quem estava de copo na boca engasgou-se de riso. O coitado do Anastácio, esse não. Engoliu em seco.

Quinta-feira, Março 18, 2004
 
Amassador de latinhas

Na última viagem que fiz ao Brasil, ofereceram-me um objecto que nunca tinha visto antes. É um amassador de latinhas. Coloca-se a lata vazia de cerveja ou de refrigerante no amassador. Amassa-se a lata e ela fica reduzida a menos de um quinto do seu volume. É óptimo para poupar espaço nos lixos, mesmo que separados. É pena não ter encontrado um amassador de garrafas de plástico, um amassador de cartões de leite e sumos, uma amassador de papel e jornal e de revistas e por aí a fora. Não sei se seria melhor ou não, pois já temos a casa cheia de baldes de lixo de diversas cores, para a separação dos mesmos, teríamos também a casa cheia de amassadores. Um dia destes ainda pensariam que o meu quintal é uma fábrica de reciclados.

Quem ficou louco com o amassador foi o meu amigo Joca. No dia da “inauguração”, não deixou mais ninguém amassar latinhas. Cada uma que se bebia ele pegava na lata e reduzia-a ao seu tamanho mais ínfimo. O fim-de-semana estava chuvoso, embora quente. Entre sumos e cervejas beberam-se mais de 40 latas. Foi uma trabalheira, mas também uma alegria para o Joca. Como noutras histórias aqui contadas o Joca é o artífice de plantão. Mas também é o jardineiro. E como neste fim-de-semana não parou de chover, não fosse o amassador de latinhas e teria sido um tédio para o Joca. Quem topou bem a cena foi o Anastácio. Esteve connosco quase até ao final do dia de Sábado e quando abalou notava-se-lhe um certo sorriso jocoso.

- Então compadre Anastácio já lá vai? – Perguntei quando o Anastácio se levantou da cadeira.
- Tem de ser compadre. É que se está fazendo tarde para a janta e eu ainda tenho aí um servicinho para fazer – respondeu o Anastácio.
- Oh compadre, mas vossemecê poderia jantar hoje cá com a gente. A minha mulher está a fazer um arrozinho de coelho e a Isilda fez um bolo de bolacha magnifico para a sobremesa – ainda tentei convencê-lo.
- Não compadre, agradeço, mas hoje está a apetecer-me umas migas e a Adelina já as deve estar preparando. Além disso compadre, ainda tenho aí um servicinho para fazer. – O Anastácio despediu-se e abalou.

Eram quatro horas de Domingo. Tínhamos almoçado um grelhado misto, de entrecosto, entremeadas, linguiça e bifanas. O tempo continuava a não escapar muito bem, mas aquele capacete de nuvens tinha deixado um ar abafado. O Joca pegou na tesoura de podar e aproveitando as abertas lá ía limpando aqui e ali. Ora cortava mais uns ramos ás buganvílias, ora ía aparando a romãzeira. Nós conversávamos sobre o estado do tempo. Talvez nos faltasse conversa. Quem não tem mais que dizer fala do tempo.

- Oh gente boa, pode-se entrar? – Era, claro está o Anastácio.

O Anastácio chegou com uma grande saco de plástico na mão.

- Foi ás compras hoje, compadre? Mas hoje é Domingo homem. – Perguntei eu apenas com a curiosidade de saber o que é que o Anastácio trazia em tão recheado saco.

- Oh Joca, chega lá aqui! – Chamou o Anastácio.

O Joca, meio enfastiado por ter de interromper o desbaste – e que desbaste este tipo me dá nas minhas pobres plantas – lá veio, também ele, curioso.

- Pega lá isto Joca. Já tens com que te entreter.

O Anastácio tinha estado no final do dia anterior e hoje pela manhã a recolher latas de cerveja pelas vendas do monte. Trouxe-as para se meter com o Joca. Este é que mais uma vez ficou “de trombas”.

- Oh Anastácio, você é que tem cá uma lata.

Segunda-feira, Março 15, 2004
 
Cavalos

O Anastácio entra-nos a rir, que nem um perdido, pelo quintal dentro. Tenho a impressão que nem a pergunta habitual ele fez. “Oh homem desembuche!”. Mas o Anastácio queria começar a falar e engasgava de repente. O riso às gargalhadas nem o deixava falar. A muito custo e com a ajuda de um copinho de água lá foi acalmando.

- Oh compadre, o que é que lhe provocou tamanha riseira? – Perguntei eu.

- Calma que já vos conto. Suspirou e começou – Vossemecês ainda se lembram do Joaquim Afonso?

- Quem o pai ou o filho? – Acho que o Ti Manel faz sempre esta pergunta sacramental, para no final argumentar – Nãoooo, a esse ninguém lhe põe a vista em cima.

- O filho, oh Manel, o filho…

- Nãoooo – mas desta vez o Ti Manel foi interrompido pelo próprio Anastácio.

- Oh Manel deixa-te lá de nãos nem meio nãos. Se eu estou a dizer que é o filho é porque é o filho.

O Ti Manel calou-se. Encostou o queixo ás costas das mãos já de si, pousadas na curva do queijado.

- Oh compadre, mas o que é que o Joaquim Afonso tem assim de tão engraçado que o faça vir a rir dessa maneira? – Perguntou o Serafim, que já se impacientava com tanta conversa paralela.

- Bom, então, com a vossa licença, eu vou contar. Se não derem licença, paciência, já cá não está quem falou.

- Vá lá Anastácio, conte lá o que houve compadre. – Eu próprio apaziguei.

- Eu conto. O Joaquim Afonso, como sempre que vem de Lisboa, esteve a semana passada ali na venda do Pires tomando umas minis. Como é habitual nele, a gabarolice não pode faltar. Desta vez era o carro vermelho. Acho que é um Alfa ou sei lá como é que se chama o raio do bicho. Ele era cilindrada para aqui, cavalos para acolá. Nunca vi um homem falar tanto dos 170 cavalos que tinha à porta.

- Oh Anastácio, e que graça é que tem isso, para uma semana depois ainda estares a rir que nem um parvo? – Interrompeu o Ti Manel.

- Lá estás tu, Manel. Espera lá que ainda não acabei. – Ripostou o Anastácio. - Pois hoje, é que eu vim a saber. O Toi, o filho do Zé da ovelhas, aquele que mora ali a modos que no cabeço. Pois o Toi, que tem uma bicicleta a motor, daquelas a cair peça aqui, peça acolá, então não é que é um marafado dos diabos? Acho que o Joaquim Afonso ía a caminho da Mina, despistou-se e vossemecês, sabem aquele barranco que aí os teus garotos, oh compadre Simão (o Simão é um primo da minha mulher), costumam ir aos achigãs? Pois o belo do Joaquim Afonso despistou-se e afocinhou com os 170 cavalos bem dentro do barranco.

- Ah coitado - interrompeu a Isilda - e magoou-se?

- Que nada! Estava já ele fora do carro, a olhar á volta do bicho, quando o Toi, passou na bicicleta e lhe perguntou: “Oh Jaquim, homem, então paraste para dar águas às bestas?”.

Ninguém mais segurou o Anastácio. Desatou a rir ás gargalhadas que ía sufocando.

Nem tivemos tempo de achar piada, tal não foi o nosso susto a tentar socorrer o pobre do Anastácio.

Quinta-feira, Março 11, 2004
 
Falar “estrangeiro”

Num intercâmbio cultural, o meu filho esteve em Birmingham na Inglaterra e, consequentemente, um estudante inglês veio passar uma temporada em nossa casa.

Compramos alguns tipos de alimentos que habitualmente não fazem parte dos nossos (cá de casa) pequenos-almoços. Nós (agora falo dos portugueses, em geral), somos um pouco mais comedidos a tomar o pequeno-almoço e, depois, empanturramo-nos com grandes almoçaradas e jantaradas. São péssimos hábitos alimentares que ganhámos, não conheço os motivos histórico-gastronómicos, mas os nutricionistas bem tentam lutar contra este estado de coisas. A verdade, verdadinha é que o nosso amigo inglês, mal cá chegou, deixou-se vencer pelos nossos prazeres de mesa. E como no Verão – nas outras estações, também, mas no Verão é pior - encher muito a barriguinha dá uma vontade de não se fazer nada, depois de almoço, ou se dormia a sesta ou se fazia uma tertúlia, à mesa, com cartas ou sem elas. Este estudante inglês, de que vos falo, tinha uma característica que parecem ter todos os ingleses. Um apurado sentido de humor. Por isso contar anedotas ou fazer subtis trocadilhos, era o nosso passatempo preferido.

Quem ficava ali, sem entender nada do que dizíamos ou porque ríamos, era o Ti Manel. Infelizmente o Ti Manel não tem a instrução primária e muito menos entende línguas. Mas nós com a condescendência que nos caracteriza e, com a amizade que nos une ao Ti Manel, lá íamos traduzindo em diferido quando a coisa merecia ser contada.

- Oh gente boa. Pode-se entrar? – Era mais uma vez a entrada do meu amigo Anastácio em cena. Hoje ele vinha com cara de poucos amigos, apesar de ser daqueles que face a uma boa piada costuma deitar a azia para trás das costas.

O nosso convidado estava já avisado da existência desta característica personagem. E como de humor se tratava, não perdeu a oportunidade de se meter com ele. O pior é que o Jimmy não falava uma única palavra de português, embora “arranhasse” o francês e o espanhol devido aos vários intercâmbios já realizados no estrangeiro.

- Boa tarde, amizade. Então tudo bem por aqui? Nem se deixam ver, sempre metidos no quintal – Cumprimentou o Anastácio à chegada.

- Boa tarde compadre Anastácio. Respondemos em uníssono, de tal forma que se tivesse sido ensaiado não teria saído tão certo.

- Good afternoon, respondeu o nosso Jimmy, levantando-se da cadeira para estender a mão ao Anastácio e oferecer-lhe um lugar à mesa.

Desta vez o Anastácio foi apanhado de surpresa. E nem o seu tão famoso dedo adivinho lhe valeu, pois, para ele, a presença do estrangeiro, foi completamente uma surpresa.

- Quem é esse aí, compadre Serafim? - perguntou ele ao meu cunhado que se sentava na cadeira mesmo em frente.

O Serafim lá lhe explicou sobre os intercâmbios culturais do João, e mais isto mais aquilo, lá ficaram conversando os dois enquanto, eu fui lá dentro buscar uma tacinha para o Anastácio, que desta vez aceitou um copinho de tinto (ele achava que a azia era da cerveja). Mal voltei, apressei-me a apresentar um pouco mais formalmente o nosso amigo Jimmy ao nosso mais que amigo e conhecido Anastácio.

O que vou contar a seguir só tem interesse fazê-lo tentando utilizar as expressões que ambos utilizaram ou seja em “estrangeiro” e em alentejano.

- Do you speak english? – Perguntou, cordialmente, Jimmy ao Anastácio.

O Anastácio virou-se para o Ti Manel e com um ar meio desconfiado disse:

-Oh Maneli, o que é que este tá práqui dizendo?

O Ti Manel que ainda percebia menos que o Anastácio encolheu os ombros e nem respondeu. O Jimmy, esse, voltou à carga.

- Parlez vou français? – Deveriam ter ouvido este “français” saído com um erre bem enrolado naquele característico sotaque very british.

- Oh Maneli, este aqui deve tar mangando comigo. Na achas que o moço é manganão?

E sem desistir, o Jimmy resolve perguntar-lhe em espanhol:

- Usted habla español?

Aí o Anastácio não aguentou mais, chamou o João e disse:

- Oh Joãozinho, na queres ir dar uma volta aí com o camoni? É que cá para mim ê hoje saí-lhe na rifa.

Eu acho que o Jimmy estava mesmo na malandrice. Mas talvez esperasse outra reacção do Anastácio, não sei. Eu bem vos avisei, logo no início, que o coitado vinha cheio de azia.

Quando o João explicou ao Jimmy que não valia a pena continuar porque o Anastácio não sabe falar nenhuma língua estrangeira, saíram os dois para uma volta ao monte.

Mal os rapazes voltaram costas, o Anastácio virou-se para o Ti Manel e disse-lhe.

- Oh Maneli, isto na teve piléria nenhuma, mas é muito bom a gente saber línguas. Tu na gostavas de saberi?

Responde o Ti Manel:

-Pra quê? Tu na viste o moço? Na lhe serviu pra nada.


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